segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

o nascimento de uma estrela



in: Spitzer Space Telescope

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A invenção do amor




em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios
de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia

um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversas
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo
da monotonia quotidiana

um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
apenas o silêncio
a descoberta
a estranheza de um sorriso natural e inesperado

não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
a rádio já falou
a tv anuncia iminente a captura
a polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo

é preciso encontrá-los antes que seja tarde
antes que o exemplo frutifique
antes que a invenção do amor se processe em cadeia

há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
(...)



Daniel Filipe
in A invenção do amor e outros poemas
Lisboa, Presença, 1972.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Carnaval




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hoje vi passar a festa do carnaval, a folia de rua nas vilas da orla, os blocos de cidades do sertão, o frevo e o maracatu de avenidas. imagens que emergiam e escapavam na estrada, numa tarde de nuvens dispersas, céu claro. outro tempo de festa também varria o retrovisor, feito de acordar com neblina e aroma de flores que enchem a paisagem e fazem dançar os sentidos. hoje, uma saudade intempestiva abrasou minha alma e o resto do dia.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Wladimir Maiakósvski


[Esperança, quadro de Gustav Klimt que se encontra no MoMA - Museum of Modern Art of New York]
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Nestes últimos vinte anos
nada de novo há,
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também porque razão
haveríamos de ficar tristes?
o mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras,
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Wladimir Maiakósvski (1927)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

feliz ano velho

abaixo da linha do equador
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estamos no fim do ano, e não posso me esquivar de uma lista básica. das coisas que faz a vida ter mais graça: música, cinema, a cidade e os queridos seres que dão cor e movem minha vidinha. segue, então, uma pequena lista, completamente pessoal e subjetiva, sem critérios, nem hierarquias...
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fazer o clipe Costa Rica, do grupo de hip-hop Costa a Costa, foi o melhor de 2007: o resultado agradou a gregos e baianos. e foram três dias de trabalho e entusiasmo, em companhia dessa gente linda, elegante e sincera, percorrendo os espaços maravilhosos da cidade, em lugares que nos espantam e fazem de qualquer feliz roteiro uma feliz realização, que se re-escreve numa paisagem naturalmente generosa, que dispensa qualquer efeito especial... essa luz que se derrama sobre nós, sobreviventes do céu e inferno, que fica bem abaixo da linha do equador.
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gente é prá ser feliz...
para os amigos e parceiros, que fizeram acontecer encontros bacanas em 2007, de trocas afetivas e de trabalho, desejo que as afinidades que nos unem, sejam cada vez mais radical e esteticamente eletivas, em todo o resto de nossas existências. são vocês, mais que especiais, deliciosos interlocutores da vida que pulsa debaixo da linha do equador: Valdo Siqueira (não suporto viver longe dele), Leonardo (cúmplice de todas as horas), Ricardo (sem ele, a rotina dos dias não tem requinte, nem humor), Alexander (parece que nos conhecemos faz um século), Don L. (parceiro querido e amigo) + Nego Gallo, Flip Jay, Junior D. e Preto B (o jogo é de vocês, “tão ligados”?), Natália (doce bailarina de imagens), Paulo (sem suas aflições, tudo fica monocromático), Philipi (falta tempo para tanta boa conversa), Valentino (o mais destemido, um caso irrecusável de adoção), Bruno (que suporta as dores do mundo e esquece as suas), Lídia (nêga maluca e especial), Gabriel (comentarista precioso) Luís (uma figura sólida e essencial), Bia e as Danieles (em silêncio, elas já falam demais), Helder (quem nos conduz, tranqüilamente).
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Divas

Amy Winehouse e Mari (Chambao) nesses clipes geniais.





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Império dos sonhos, David Lynch



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confesso minha atração pelas narrativas não-lineares. na vida e na arte. afinal, nossas vidas são narrativas em linhas desordenadas, onde personagens e fatos seguem, conexos, desconexos, com trilhas sonoras e eventos que ora nos surpreendem, nos alegram, nos entediam ou nos aterrorizam. confesso também minha atração pela obra de David Lynch. vi tudo, dos episódios da cult série televisiva “Twin Peaks” até mesmo o filme trash “Encaixotando Helena”.
uma coisa que atrai em Lynch é que ele costumar dar nocautes nos espectadores, no primeiro ou no último da fila. no especialista ou no mais desavisado. Lynch faz o que quer no cinema e deixa suas marcas em boas narrativas fílmicas. "Inland empire" título original, traduzido aqui por "Império dos sonhos" é sim um tenso e angustiante pesadelo vivido pela atriz Laura Dern (outra diva) que necessita da participação, ou familiaridade do espectador com a linguagem do diretor - para montar o mundo em que a protagonista se encontra presa, um mundo de terror. à medida que é possível juntar os fragmentos dessa narrativa, qualquer um pode sentir falta de um manual para sobreviver ao filme... mas também, é possível montar o quebra-cabeças que de modo geral, me parece, conter fragmentos de toda a obra do diretor. ou de outro modo, seguir as pistas e desvendar essa história descontínua, plena de códigos quase inteligíveis, também clichês, mistérios e estranhas obsessões: esse o submundo de Lynch. mas também de qualquer pessoa comum. sim, cinema-arte, sem concessões. e adoro isso.
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bem vindos ao dessert do Natal!
em 2008 que se cumpram as promessas de felicidade.