segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Narrativas extraordinárias



Esses dias terminei a leitura de Contos Fantásticos do Século XIX, organizado por Ítalo Calvino. A narrativa fantástica, nos diz Calvino nasce no terreno da filosofia dos séculos XVIII e XIX. E seu tema é, pois, “a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda.” No prefácio uma distinção entre o fantástico e o maravilhoso: Todorov, em sua Introduction à la littérature fantastique (1970), afirma que aquilo que distingue o “fantástico” narrativo é precisamente uma perplexidade diante de um fato inacreditável, uma hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do sobrenatural. Entretando, a personagem do incrédulo positivista que aparece freqüentemente neste tipo de narrativa, vista com piedade e sarcasmo porque deve render-se ao que não sabe explicar, nunca é contestada em profundidade. De acordo com Todorov, o fato extraordinário que o conto narra deve deixar sempre uma possibilidade de explicação racional, ainda que seja a da alucinação ou do sonho (boa tampa para todas as panelas). Já o “maravilhoso”, também conforme Todorov, se distingue do “fantástico” na medida em que se pressupõe a aceitação do inverossímel e do inexplicável, tal como ocorre nas fábulas das Mil e uma noites.
Esses relatos extraordinários nos fazem crer protagonistas ou autores de algumas daquelas histórias - nossa mente revela-se na aparência de histórias banais, que nos inquietam misteriosa e aterradoramente. Essa, pois a essência desses contos que felizmente atravessam as cores do tempo. Os contos escolhidos são de autores como Honoré de Balzac, Walter Scott, Ernst Hoffmann, Nikolai Gogol, Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Guy de Maupassant, Robert Stevenson, Henry James, Rudyard Kipling, entre outros.
Ernst Hoffmann, em O Homem de Areia (Der Sandmann – 1817), nos impressiona. Mas antes ele nos adverte: “talvez, caro leitor, te convenças de que nada é mais fantástico e extraordinário que a vida real e de que o escritor não é capaz de apresentá-lo senão como um obscuro reflexo num espelho embaçado.” O Homem de Areia inspirou a obra de Offenbach e é referência num ensaio de Freud sobre “o estranho”. É um conto sobre o bicho papão - tão aludido pelas mães para sossegar seus filhos – um fantasma que habita nosso inconsciente e que pode se manifestar de forma bastante misteriosa. Mas trata-se, no entanto, dos conflitos interiores - que envolvem o homem e que podem assumir dimensões sombrias, o poder que está dentro de nós, que lhe damos formas e nomes, perpetuando-o sigilosamente. ‘Mas se tivermos firmeza e serenidade suficientes para reconhecer as influências externas adversas, tal como realmente são, e seguirmos tranqüilamente o caminho apontado pela nossa inclinação e vocação, esse misterioso poder está fadado a fracassar em sua lida inútil para chegar a forma que é o reflexo de nossa própria imagem (...) os conflitos que nos afligem são fantasmas de nossos próprio eu... cuja íntima ligação e cuja influência profunda sobre o nosso espírito nos precipitam no inferno ou nos alçam ao céu.” O homem de areia, o bicho papão, ou outro nome que lhe é dado, nos diz muito das fantasmagorias que nos tocam desprevenidos - aquilo que se vê, ou se projeta como realidade, enfim, o que pode provocar uma neblina, ou um estado de vigília, nessa guerrilha com imaginários seres que nos pertencem.

Contos fantásticos do século XIX, escolhidos por Italo Calvino, São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

5 comentários:

Leonardo Sá disse...

delicio-me com tuas escolhas. já encomendei esse aí. beijão.

maria. disse...

só um detalhe:
a música que o erlend tocou do bob dylan foi

"don't think twice, it's alright"

:~

victor furtado disse...

creio que já se inspiraram na leitura do seu post. andaram criando blogs com a intenção de prosperar os contos fantásticos de uma literatura modernista.

conferiu o blog "quitanda do quizumbo"?

Devendo a tese de que teus textos e recomendações inspiram-nos.

Deivyson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deivy disse...

Deve ser fantastico. Irei a procura.

saudades dear , um beijo enorme