domingo, 3 de dezembro de 2006

Depois de uma partida de futebol

“...às oito horas tenho que está na posição de atendimento da empresa. já são três horas, e essa cerveja não me deixa sair daqui”... . verte o copo e reproduz sua fala no telemarketing: “Bom dia senhor! Você está falando com Jonas, da Telemar, seu CPf é...?” naquela noite ele saiu para jogar futebol com seus amigos. fim de jogo, precisavam comemorar a vitória do time. Jonas não imaginava que a noite apenas começava naquele bar de terceira, bebida de primeira, centrado no coração da Varjota. sua bermuda de estampas hawai combinava com o nome do lugar: Caribe´s Bar. afora o nome, o lugar não lembrava em nada o clima caribenho. velhas mesas mal-arrumadas, toalhas com cheiro de mofo, luzes de mercúrio acentuavam o aspecto sujo e suspeito do ambiente. um senhor ao teclado sussurrava músicas, a voz quase inaudível e os acordes programados faziam qualquer canção executada ser sempre a mesma. mas a vida pulsava no Caribe´s Bar naquela terça-feira. de chegada, Jonas viu um homem solitário, meio estranho paranormal, aspecto de Nosferatu. esse cidadão revelou-se, no mais adiantado da hora, ser o melhor jogador de sinuca dali. tendo sido ameaçado, apenas, por uma moça de cabelo acobreado, que parecia não saber a mira de sua vida, mas que acertava o alvo das bolas. Jonas não compreendia a poesia de Caio Fernando Abreu falada por uma jovem de cabelos curtos, sorridente, ar de carente, que se afirmava pela voz do poeta, talvez não lhe diziam respeito, não àquela hora da noite, as dores do mundo ou o pequeno vasto mundo daquelas frases... atento mesmo somente à voz de um companheiro seu, que insistia em acompanhar o crooner do bar, com perfomances bizarras para canções preferidas por boêmios - ou bêbado de ocasião – esse o seu estado... Jonas perambulou pelas mesas do bar. encontrou uma portuguesa, menina bonita, acompanhada de um jovem também belo, que fumava e falava muito com sotaque marcado, ele não reconhecia seu próprio idioma . “como? o que ela disse?”, sem tradutor, desistiu da conversa. em outra mesa ouviu por cinco minutos uma discussão política que lhe causou tédio momentâneo. levantou-se e postou-se no balcão do bar, a janela que se comunica com a cozinha. o melhor posto de observação do lugar. são três horas e seus freqüentadores chegam. gente e fumaça de cigarro inflamam o ambiente, logo forma-se uma fila para disputar com Nosferatu as partidas de sinuca. Jonas pensa “e se eu esquecer o texto que tenho que dizer pros clientes? sim, isso pode acontecer, estou nesse estado e cedo vou me posicionar no PA...”. repassou as frases que repete, em média cento e cinqüenta vezes por dia ao telefone, mas mesmo assim poderia errar, ele sabia disso. parou o texto quando aportaram seis garotas. sentaram-se, pediram cerveja e depois de dez minutos, em grupo de duas, entravam no banheiro. voltavam felizes, sorrindo, e a conversa delas animava o bar. queria ser o pachá daquele harém, ah se queria. trocou olhares e sorrisos com as moças. imaginava de qual planeta desceram aquelas mulheres, de roupas e maquiagem escuras, cabelos desalinhados, pareciam saídas de uma revista de moda. a mais bela das moças, segundo julgamento de Jonas, cruzou seu olhar com o dele. ela deteve-se, ele olhou pro lado para não restar dúvida. era verdade, ela mesma encarava seus olhos amendoados. linda, maravilhosa com aquele cigarro na mão, a pele branca porcelana contrastava com seus cabelos negros de mechas lilás, batom escuro, um piercing na sobrancelha, Jonas foi ao paraíso através de seus olhos. pensou como era diferente de sua namorada, Brenda, sempre de argolas enormes nas orelhas, saltos altíssimos, mini-saias e o cabelo de chapinha japonesa. a moça segue ao banheiro e Jonas acompanha a partida de sinuca entre o Nosferatu e a mulher, os perdedores também estavam absortos nos lances, silenciosos. Daí que a moça saiu do banheiro e postou-se a seu lado. ele não a percebeu até ouvir sua voz: “que tal você sentar com a gente?” perguntou a guapa. recuperado do susto, Jonas não hesitou e lá estava em seu harém... a partir daí, nenhum motivo o desviaria da mesa. um olhar em direção à seus amigos seria a senha para a aproximação de qualquer um deles, isso quedaria fatal. o Eduardo, aqui, seria demolidor, qualquer conversa sua seduz até mesmo uma estátua de pedra. não, ele não iria sabotar a sorte grande. uma das moças pediu a conta. e sua amiga, sim ele já a considerava sua amiga, convidou-o para sair do bar com elas. às cinco da manhã Jonas seguiria com as moças, sem querer saber qual destino, apenas um aceno para os colegas... já numa estrada se escutava a música... jamais tinha ido a uma rave, fato inconfessável. aquela batida e som altos afetavam seu espírito. ingeriu uma pastilha branca e bebeu e fumou e gargalhou e dançou... neste instante, Jonas está deitado num quarto escuro, o texto do telemarketing deletado, em definitivo, de sua mente, o corpo em tiras e seu mundinho suburbano em demolição.

10 comentários:

curveiro disse...

o reals e faz ficção no mais doce paladar da vida.
Adoro suas crônicas, as fiéis observações.
E adoro mais ainda saber que pude participar do momento, de algum momento, de qualquer momento de construção delas.

sublime!

ricardo disse...

escrever pra quê? bom é isso aqui.

Assim é, se lhe parece disse...

muito bom...
é isso, ainda bem que estava lá!

Dudu disse...

Ei, Simoní, gostei muito... tá tinindo... mas vem cá, essa história TODA rolô mermo, foi?

simone disse...

Dudu, mais ficção que fato real...
alguns personagens existem.
esse Eduardo aí é meio tu também!
bjos

Anônimo disse...

É, confesso... Sou uma parte do Jonas, senao o todo. hehee. Muito bom Simone, muito bom mesmo, fiquei super curioso pra saber como ia terminar, hehehe... alem de rir um pouco kkkkk

Márcia disse...

esse Jonas é um personagem de um curta... não achas?
boa mesmo a crônica.
beijos

Fernando disse...

teus insigts... atomertam e expandem a alma.
beijo querida

deivy disse...

Adorei, por um instante me senti na varjota em volta de uma sinca.

beijoss

kataoka disse...

afe, simone, tá ótimo esse texto. muito bom mesmo. bem que você disse que eu ia gostar :D

beijos. ^^